Alguns dias atrás, teve um momento com uma pessoa do meu time que está aprendendo a usar uma inteligência artificial.

Para mim, aquilo é fácil. Estou mexendo com isso há muito tempo, já passei da curva, já errei o suficiente para hoje saber o caminho. Ela não. Ela não sabia mexer direito com quase nada. Travava no básico, não sabia o que pedir, não sabia como garantir que a ferramenta fizesse o que ela queria. E ali, naquela cena, eu tinha duas opções na frente, e elas pareciam quase a mesma coisa.

A primeira era pegar o teclado. Resolver por ela. Em poucos minutos o problema estaria fora da mesa, ela me agradeceria, e eu seguiria o meu dia com a sensação boa de ter ajudado.

A segunda era mais lenta. Parar o meu tempo. Sentar do lado, explicar como ela tinha que fazer, o que ela tinha que falar, como ela tinha que garantir que a ferramenta entregasse o que ela precisava.

Eu escolhi a segunda. E na hora eu já vi a capacidade dela mudar.

Ainda não dá para falar em produtividade, porque não deu para medir, e eu não vou inventar um número que não existe. Mas o que mudou na frente dos meus olhos foi outra coisa: a forma como ela conseguia fazer aquilo sozinha, em função de um conhecimento que dez minutos antes ela não tinha. Era um pedaço novo de capacidade entrando nela. E esse pedaço fica.

O socorro que parece liderança é o atalho mais caro que existe

Aqui está a parte que demorei para enxergar, e que eu suspeito que muito líder também não enxerga.

A gente sabe muito mais que o time. Não porque é mais inteligente. É porque está ali há mais tempo. Já viu aquele problema dez vezes, já sabe onde ele costuma travar, já tem o caminho mapeado na cabeça. Então, quando alguém chega com uma dúvida, a resposta mais rápida do mundo é fazer por ele. É mais rápido eu fazer do que ensinar. Isso é verdade no curto prazo, e é exatamente por isso que é uma armadilha.

Porque quando você faz por ele, duas coisas acontecem ao mesmo tempo, e só uma delas é boa.

A primeira: o problema de hoje some. Você resolveu, a tarefa saiu, todo mundo segue.

A segunda: se você só resolve e nunca ensina, garante que o problema de amanhã volte. Você ensinou, sem querer, que o caminho dele quando trava é te chamar. Não aprender. Te chamar. Da próxima vez que aparecer a mesma dúvida, ou uma parecida, ele vai bater na sua porta de novo, igualzinho, porque você o deixou exatamente onde ele estava. Você apagou o incêndio e deixou a fiação velha intacta.

E aí você olha para a sua semana e ela está cheia. Cheia de gente precisando de você para coisas que, no fundo, elas mesmas poderiam resolver, se alguém um dia tivesse parado para ensinar. Você se acha indispensável. Mas indispensável é só o nome bonito de gargalo.

Ajudar não é fazer por.

Ensinar é parar o seu tempo para que o outro não precise mais de você

Tem uma frase que ficou comigo depois dessa cena, e ela é o centro de tudo.

A gente pode ajudar muito o time. Mas não no sentido de fazer por eles, e sim de parar o nosso tempo para ensinar eles a usar as ferramentas de uma forma que eles não precisem mais da gente.

Lê de novo a segunda metade: de uma forma que eles não precisem mais da gente. Esse é o teste. Esse é o que separa o líder que ajuda de verdade do líder que só apaga incêndio com cara de quem está ajudando.

Quando você faz por alguém, a dependência continua intacta. Você foi útil hoje e construiu a sua própria fila para amanhã. Quando você ensina, você está, de propósito, se tornando desnecessário naquele ponto específico. Está instalando no outro a capacidade de não precisar de você ali. É um movimento que dói um pouco no ego, porque ser procurado dá uma sensação de importância. Mas líder que precisa ser procurado o tempo todo não é um líder forte. É um ponto único de falha andando.

Repara que isso custa caro na hora. Parar o seu tempo para ensinar é mais lento, mais trabalhoso, e não te dá o alívio imediato de ver a tarefa pronta. Você paga um preço agora. Só que esse preço é um investimento, não um gasto. Você paga uma vez, em dez minutos de paciência, e recebe de volta uma pessoa que resolve aquilo sozinha de hoje em diante. Fazer por ela é o contrário: parece grátis hoje, e enquanto você só resolver e nunca ensinar, te cobra um boleto toda semana.

A conta é simples, e quase ninguém faz.

A autonomia tem três pilares, e nenhum deles é confiança no escuro

Quando eu parei para pensar no que tinha acontecido ali, a palavra que apareceu foi autonomia. E autonomia não é um presente que você entrega num gesto de boa vontade. É uma construção, e ela tem partes claras.

A pergunta que eu me faço sobre qualquer pessoa do time é esta: ela tem o conhecimento e a habilidade para fazer a função?

E uma coisa vem antes da outra. Primeiro o conhecimento: a pessoa sabe o que precisa ser feito. Depois a habilidade: ela consegue, na prática, executar aquilo, porque o conhecimento sozinho, recém-chegado, ainda não virou destreza. Tem que virar habilidade primeiro, com repetição, com uso. E o terceiro pilar é a responsabilidade: a pessoa assume aquilo como dela.

Se ela sabe o que tem que fazer, tem o conhecimento para fazer, e for responsável, vai dar certo.

Repara que dar autonomia não é largar a mão e torcer. Largar a mão de quem não tem conhecimento nem habilidade não é autonomia, é abandono, e o resultado é o caos que te faz voltar correndo para fazer tudo de novo, agora mais convencido de que ninguém consegue, só você. O que te tira do centro não é confiar no escuro. É construir, peça por peça, a base que torna a confiança possível. Você instala o conhecimento, deixa ele virar habilidade, e devolve a responsabilidade. Aí, sim, pode soltar.

E o seu trabalho, como líder, é justamente alimentar os dois primeiros pilares. O terceiro, a pessoa carrega. Mas o conhecimento e a habilidade, é você quem ajuda a instalar, no dia em que para o seu tempo e ensina.

O que é óbvio para você é desafiador para o outro, e isso muda tudo

Tem um detalhe nessa história que parece pequeno e não é.

A coisa toda foi fácil para mim porque eu estou nela há tempo. O que para mim era óbvio, para ela era um muro. E essa distância entre o meu óbvio e o desafio dela é exatamente o ponto cego do líder. A gente assume que, se é fácil para a gente, é fácil para qualquer um. Aí a gente se impacienta quando o outro não chega sozinho lá, e conclui que o problema é a pessoa.

Quase nunca é. O óbvio para você é desafiador para o outro.

E faz sentido que seja. As pessoas são diferentes, por serem pessoas. Idade, cultura, conhecimento acumulado, trajetória, o ponto de partida de cada uma. Tudo isso é intrínseco de ser gente, e tudo isso faz com que o caminho que você atravessa de olhos fechados seja, para o outro, um caminho que ele nunca andou. Esperar que ele chegue sozinho ao mesmo lugar que você, sem nunca ter recebido o mapa, é cobrar dele uma coisa que você nunca deu.

É aí que a sua função vira ensinar. Não porque o outro é menos, mas porque você está mais à frente, e estar à frente, na liderança, não é privilégio para se gabar. É responsabilidade de puxar quem vem atrás. O líder que enxerga o próprio óbvio como dom pessoal acumula gargalo. O líder que enxerga o próprio óbvio como conhecimento que dá para transmitir constrói time.

Cada pessoa que você ensina a não precisar de você é um pedaço da operação que passa a rodar sozinha. Esse é o mecanismo de sair do centro. Não é delegar uma tarefa solta e ficar de olho. É instalar capacidade, uma pessoa de cada vez, até que a operação deixe de depender de você para girar.

Ajudar não é fazer por.

Olhe para a sua semana

Aqui é onde eu te devolvo o assunto, porque ele não é meu, é seu.

Pega a última vez que alguém do seu time travou e veio até você. E seja honesto sobre o que você fez nos minutos seguintes. Você ensinou, ou você só apagou o incêndio?

Se você pegou o teclado, resolveu, devolveu pronto e seguiu o dia, presta atenção numa coisa: você foi rápido, foi útil, e garantiu que essa mesma pessoa volte com a mesma dúvida na próxima vez. Você não a tirou da dependência. Você confirmou ela.

Se você parou o seu tempo, sentou do lado, e ensinou de um jeito que ela vá conseguir fazer sozinha amanhã, você fez uma coisa mais lenta, mais chata, e infinitamente mais valiosa: você devolveu para ela um pedaço de autonomia, e devolveu para você um pedaço da sua semana.

A próxima vez que alguém travar na sua frente, repara na escolha. Ela parece a mesma, mas não é. Uma resolve o problema de hoje e compra o de amanhã. A outra custa dez minutos agora e devolve uma pessoa que não precisa mais de você naquele ponto.

A energia de ter resolvido rápido vai embora no fim do dia.

O que fica é o que você ensinou.

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Guilherme Barros

Fundador da GoFusion | Criador do Líderes da Logística

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