No começo, eu adorava certas reuniões.

Saía de cada uma delas elétrico. A gente jogava ideia em cima de ideia, "vamos fazer isso", "e se a gente fizesse aquilo", "cara, vai ficar muito bom". Todo mundo concordava. Todo mundo saía animado. Eu chegava em casa com a sensação de que alguma coisa importante tinha acontecido ali dentro.

E não tinha acontecido nada.

Na semana seguinte, a mesma pauta voltava. As mesmas ideias, ditas com a mesma empolgação, por gente que tinha esquecido que já tinha dito tudo aquilo sete dias antes. A gente reabria o mesmo assunto como se fosse novo. Eu ficava esperando o tal "vai ficar muito bom" virar alguma coisa concreta na operação, e ele simplesmente não virava.

Demorei para entender o que estava errado, porque o sintoma se disfarçava muito bem. A energia da sala parecia resultado. A concordância parecia decisão.

Mas concordar não é decidir.

A concordância tem cara de decisão. E não é.

Esse é o centro do problema. As duas coisas se parecem por fora.

Quando uma sala inteira balança a cabeça, quando ninguém discorda, quando todo mundo fala "faz sentido, vamos nessa", aquilo parece uma questão resolvida. Bate até um alívio, como se alguma coisa tivesse fechado. Só que esse alívio é falso. O que aconteceu ali foi alinhamento de opinião, não compromisso de execução. Todo mundo achou bom. Ninguém saiu carregando nada nas costas.

Eu demorei para entender por que a gente caía sempre nisso. Enquanto a ideia é só ideia, ela pertence a todos e não pesa em ninguém. No instante em que vira decisão, ela ganha as duas coisas que faltavam na sala: um responsável e um prazo. E responsável e prazo são exatamente o que ninguém quer assumir no calor da boa conversa, porque o que tem dono e data pode ser cobrado, e o que pode ser cobrado pode falhar. Aí é mais confortável deixar tudo no "vamos fazer", que soa como avanço e não obriga ninguém a nada. A ideia continua de todos, e o que é de todos não é de ninguém.

Então a reunião termina com a sala cheia de "vamos fazer" e vazia de quem, quando e o quê exatamente. A empolgação cobre o buraco. Você confunde o barulho do entusiasmo com o som de uma coisa sendo resolvida.

Todo mundo concordou. E ninguém decidiu nada.

O que faz uma decisão ser real

A gente não estava na sala à toa. A gente se juntava para escolher um rumo, para definir o que ia ser feito. Esse era o motivo de estar todo mundo ali, parado, na mesma mesa. Uma reunião dessas existe para sair de lá com uma decisão. Sem isso, ela perde o sentido de ter acontecido.

Enquanto eu olhava só para a energia, eu achava que tinha conseguido. Aí parei de medir pela energia e comecei a olhar pelo que ficava de pé depois que todo mundo levantava da cadeira. E o que faz uma decisão ficar de pé são três coisas. Sem as três, não foi decisão. Foi conversa boa. E conversa boa não move operação.

A primeira é uma escolha feita. Não três caminhos em aberto que "a gente avalia melhor depois". Uma opção escolhida, em detrimento das outras. Decidir é fechar portas, não manter todas entreabertas para se sentir prudente. Quando a reunião termina com "temos algumas possibilidades na mesa", você não decidiu, você adiou. E adiar com cara de avanço é a forma mais cara de não andar, porque você gasta a reunião inteira, ocupa o tempo de todo mundo, e ainda sai achando que resolveu. O custo aparece só na semana seguinte, quando o assunto volta intacto.

A segunda é um dono. Uma pessoa. Não "a equipe", não "o setor", não "a gente vê isso". Quando a responsabilidade é de todos, ela não é de ninguém, e na semana seguinte cada um vai supor, de boa-fé, que o outro ia tocar aquilo. Ninguém errou de propósito. O combinado é que estava frouxo. Dono é nome próprio. É você olhar para uma pessoa, essa pessoa olhar de volta e dizer "é comigo". Sem isso, a decisão fica órfã, flutuando na sala, esperando que alguém adote por conta própria. E quase nunca alguém adota.

A terceira é um prazo. Uma data. "O quanto antes" não é prazo, é desejo educado. "Essa semana" ainda é frouxo, porque a semana acaba e ninguém marcou o dia. Decisão de verdade tem data, porque é a data que transforma intenção em compromisso que dá para verificar. Sem prazo, a tarefa vira aquela coisa que mora para sempre no "vou fazer" e nunca chega no "fiz". Ela não está atrasada, porque nunca teve um quando. Ela só está eternamente pendente. E pendência sem data não incomoda ninguém, ela só se acumula em silêncio.

Escolha, dono, prazo. Tire um dos três e veja o que sobra.

Tire a escolha, e você tem gente comprometida com um prazo para um caminho que ninguém definiu. Tire o dono, e você tem uma decisão clara, com data, que ninguém vai puxar para si. Tire o prazo, e você tem a melhor intenção do mundo morando confortável no futuro indefinido. Os três juntos são o que separa uma reunião que move a operação de uma reunião que só consumiu a manhã de todo mundo e devolveu a sensação de produtividade sem a produtividade.

A reunião que termina com os três se pagou. A que termina sem eles não foi uma reunião ruim. Foi uma reunião que não precisava ter acontecido.

Depois eu percebi que isso não era só sobre reunião

Numa call de financeiro, há algumas semanas, alguém da equipe trouxe a ideia de criar um controle novo. Um indicador a mais para acompanhar de perto. Proposta boa, bem-intencionada, do tipo que normalmente entra na planilha sem ninguém questionar.

Eu fiz uma pergunta antes: "que decisão a gente vai tomar olhando para esse número?"

Silêncio. Porque não tinha resposta. Era um controle que ia ser bonito de acompanhar e não ia mudar nada do que a gente fazia. Ia dar trabalho de alimentar, tempo de olhar, e nenhuma ação diferente no fim.

Essa pergunta eu aprendi com o Norberto Rotter, alguém a quem eu devo muito do meu jeito de enxergar gestão. A regra dele é simples e corta fundo: indicador que não gera decisão não precisa existir.

É exatamente a mesma doença da reunião. A reunião que não termina em decisão é tempo gasto sem retorno. O indicador que não muda nenhuma escolha é trabalho gasto sem retorno. O relatório que ninguém usa para decidir é página gasta sem retorno. Muda o formato, a raiz é a mesma: a gente cria coisa na gestão por hábito, por sensação de controle, por parecer que está cuidando, e esquece de perguntar para que aquilo serve.

Tudo na gestão existe para servir uma decisão. Reunião, indicador, relatório, controle. Se não leva a uma escolha que você vai fazer diferente, é peso, não é ferramenta. E peso, na operação, você já tem de sobra.

Então hoje, antes de criar qualquer coisa, eu faço a pergunta do Norberto. Que decisão isso vai gerar? Se eu não consigo responder, eu não crio. E quando a resposta existe, ela já me entrega os três elementos de bandeja: a escolha que está em jogo, quem vai tocar, até quando.

Nem toda reunião precisa decidir. Mas você precisa saber qual é qual.

Tem uma armadilha aqui, e eu não quero te empurrar para o extremo oposto.

Existe um tipo de reunião que não é para decidir. É para informar. Eu estou ali para alinhar todo mundo no mesmo ponto, passar um contexto, garantir que a equipe sabe o que precisa saber. Isso existe, é legítimo, e é outra coisa. Uma reunião de informação cumpriu o objetivo dela quando todo mundo saiu sabendo o que não sabia quando entrou. Ela não precisa de escolha, de dono nem de prazo, porque não está decidindo nada. Está nivelando. Cobrar decisão de uma reunião que era de informação é tão errado quanto sair de uma reunião de decisão sem decidir.

O problema, então, não é a reunião que informa. E também não é a reunião em si, longa ou curta. Reunião é ferramenta, e ferramenta boa. A reunião semanal, no momento certo, foi uma das coisas que mais arrumou a minha gestão.

O problema é a reunião que parecia ser de decisão, que todo mundo na sala tratou como sendo de decisão, e que terminou sem decisão nenhuma. É a confusão entre os dois tipos que mata. Você sai achando que resolveu, porque a sala estava cheia de energia e de concordância, mas você só informou, ou pior, só conversou animado. E aí a operação não anda, e você não entende o porquê, já que "a gente acabou de falar sobre isso na reunião".

Vocês falaram. Vocês concordaram. Ninguém decidiu.

Olhe para a sua semana

Aqui é onde eu te devolvo o assunto, porque ele não é meu, é seu.

Pega as últimas decisões que você acha que tomou. As conversas que terminaram em "combinado", os alinhamentos que saíram com a sala inteira concordando, as ideias que todo mundo achou ótimas e que te deram aquela sensação boa de equipe afiada. Agora passa cada uma por um filtro de três perguntas, sem dó. Qual foi a escolha feita? Quem é o dono, com nome próprio? Qual é a data?

Se uma delas não responde às três, ela não foi decidida. Ela foi conversada. E conversa não cumpre prazo, conversa não tem dono, conversa volta na pauta da semana que vem com a mesma cara de novidade, e você vai gastar de novo a mesma energia para chegar de novo a lugar nenhum.

Foi por isso, lá atrás, que a reunião semanal com ata mudou o meu jogo. A ata não estava ali para registrar o que a gente falou. Estava ali para travar escolha, dono e data no papel, e voltar como primeira pauta da semana seguinte, cobrando exatamente o que tinha sido decidido. Sem ata, a decisão depende da sua memória, e memória é generosa com o que não foi feito. Com ata, a decisão depende do combinado. E combinado, ao contrário de memória, não some.

Mas a ata é só onde você registra. O trabalho de verdade acontece antes: é transformar a concordância da sala em uma decisão com os três elementos, ainda dentro da reunião, antes de todo mundo levantar da cadeira animado e se espalhar pela operação levando nada.

Porque a energia da sala vai embora no estacionamento.

O que fica é o que tem dono e prazo.

Concordar não é decidir.

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