Teve uma época em que eu olhei para uma aposta e pensei: é essa que salva tudo.

Eu já vinha de tombo. Fechamento de empresa, dívida, ano ruim que não virava. E aí apareceu um caminho que prometia resolver de uma vez só. Um negócio que, na minha cabeça, ia recuperar tudo o que tinha ido embora nos anos anteriores. Eu olhei para aquilo e não vi risco. Vi salvação.

Então eu meti a cara.

Trabalhei muito. Fiz muito. Coloquei tempo, dinheiro, energia e esperança. Tudo o que eu tinha. E o tombo veio. Não foi o tropeço que você levanta, limpa o joelho e segue. Foi de um tamanho que não dá para desfazer. O tipo de queda que não tem botão de voltar.

Por muito tempo eu carreguei aquilo como peso morto. Hoje eu carrego como a coisa mais cara que já aprendi. E o que eu aprendi não foi "não arrisque". Arriscar faz parte. Quem lidera decide com informação incompleta o tempo inteiro. O que eu aprendi foi mais fino do que isso.

Risco alto só se paga quando o tombo é reversível.

Eu não sabia disso quando meti a cara. Se soubesse, teria feito perguntas diferentes antes de decidir. Perguntas que hoje eu passo em toda decisão grande, antes de me comprometer com qualquer coisa. É sobre elas que eu quero falar com você nesta edição.

O erro não foi arriscar. Foi não separar risco de impacto.

Quando aquilo desabou, a primeira explicação que veio foi a mais fácil: eu arrisquei demais. Levei um tempo até enxergar que o erro real tinha outro nome. Eu tinha juntado duas coisas diferentes dentro de uma palavra só: risco.

Risco é a probabilidade de dar errado. Impacto é o tamanho do estrago se der errado. São eixos separados. No dia da decisão, a única pergunta que eu me fiz foi "será que dá certo?". Nunca me perguntei "e se não der, o que acontece comigo depois?".

Uma aposta de risco alto com impacto pequeno você pode fazer o dia inteiro. Trocar uma rota, testar um fornecedor novo, mudar a cadência de uma reunião: se der errado, você volta na segunda como se nada tivesse acontecido. Perde, aprende, faz de novo.

Agora uma aposta de risco alto com impacto que não volta é outra categoria de decisão. Não é ousadia. É exposição. E foi exatamente aí que eu me coloquei sem perceber. Eu vi só a primeira parte da frase: a salvação que aquilo prometia. O impacto ficou fora do meu campo de visão porque eu estava encantado com o que aquilo ia resolver.

Essa é a armadilha que pega gente séria, trabalhadora, que não é irresponsável. Não é o líder relapso que cai aqui. É o líder comprometido, que quer que dê certo tão forte que só olha para a chance de acerto. O tamanho da queda ele descobre depois. Quando já não dá para desfazer.

Coragem decide começar. Clareza decide onde.

A pergunta que muda toda decisão: se der errado, dá para desfazer?

A pergunta é essa: se der errado, dá para desfazer? Parece óbvia. Não é. No calor de uma decisão grande, quem está empolgado com o que ela promete quase nunca para para perguntar isso. Mas é justamente o pior caso que define em que categoria de aposta você está.

Tem a decisão reversível: você aposta, dá errado, e o custo de desfazer é aceitável. Recua, corrige, segue. A maior parte das decisões do dia a dia de uma operação é assim, mesmo quando não parece na hora. Uma contratação, um processo novo, uma mudança de rota. Se estiver errado, dói, mas volta.

E tem a decisão irreversível: o dinheiro não volta, o tempo não volta, a estrutura não volta. Foi aqui que eu me enfiei. Tratei uma decisão irreversível com a leveza de uma reversível. Meti a cara achando que, se não desse, eu daria um jeito depois. Não tinha depois.

Risco alto só se paga quando o tombo é reversível.

Quando o tombo tem volta, arrisque bastante. O erro barato é o melhor professor que existe. Mas quando o tombo não tem volta, a régua muda por completo. Decisão grande não pode ficar em banho-maria, é verdade: você precisa decidir logo, o time depende disso. Mas decidir rápido não te obriga a escolher o caminho sem volta. Dá para ser ágil na decisão e ainda assim recusar a aposta que, se cair, cai de vez.

O método em 4 passos que eu passo antes de qualquer decisão grande

Passo 1. Mapeie o pior caso. Escreva, com todas as letras, o que acontece se der tudo errado. A versão real, não a suavizada. "Se essa decisão falhar, eu perco o quê?". A maioria das pessoas pula esse passo porque ele estraga o clima. É desconfortável escrever o pior caso quando você está animado. É exatamente por isso que ele funciona. O que você não escreve, você não enxerga com toda a clareza que poderia.

Passo 2. Pergunte se o tombo tem volta. Com o pior caso na frente, uma pergunta só: isso é reversível ou irreversível? Não aceita meio termo. Ou você consegue desfazer, ou não consegue. Seja honesto aqui, porque a tentação é dizer "eu dou um jeito". Se você não sabe qual jeito, considere irreversível.

Passo 3. Meça a inércia financeira da decisão. Ou seja: quanto custa desfazer. Reversível barato é uma coisa. Reversível caro é outra. Tem decisão que tem volta, mas a volta custa tanto que na prática ela te prende por muito tempo. Coloque um número, ou ao menos uma ordem de grandeza. Isso muda a conversa de "eu acho" para "eu sei o que estou colocando na mesa".

Passo 4. Só então decida. Com o pior caso mapeado, a reversibilidade definida e a inércia financeira medida, aí sim você decide. E existe uma regra que fecha o método: impacto irreversível e fatal é a última alternativa, nunca a primeira. Ela não abre a lista de opções, ela encerra, depois que todas as outras foram descartadas. Você só chega nela quando não sobrou mais nada, e mesmo assim sabendo exatamente onde está pisando.

O método não te deixa mais medroso. Te deixa mais preciso. Você arrisca com mais liberdade nas decisões reversíveis justamente porque parou de gastar coragem nas irreversíveis. A clareza sobre o impacto é o que libera a ousadia no lugar certo.

Olhe para a sua semana

Você que lidera uma operação toma decisões o tempo inteiro, quase todas sob pressão. Se olhar para a sua semana, vai encontrar pelo menos uma decisão em que você está prestes a meter a cara porque ela promete resolver tudo de uma vez.

Antes de decidir, passa o filtro. Não o filtro do "vai dar certo?", o filtro do impacto: se essa decisão falhar, eu consigo desfazer? Se tiver volta, vai. Arrisca, testa, aprende. É assim que operação evolui e é assim que líder cresce. Se não tiver volta, para. Respira. Roda os quatro passos. Coloca o pior caso no papel antes de colocar a assinatura no acordo. Porque a decisão que promete salvar tudo é exatamente a que costuma cobrar mais caro, e ela quase nunca chega com etiqueta de perigo. Chega com cara de salvação.

Risco alto só se paga quando o tombo é reversível.

Eu aprendi isso da forma mais cara possível. Você não precisa aprender assim. A régua já está escrita, e ela custou o que custou para eu poder te entregar pronta.

Contexto explica a aposta. Responsabilidade decide se ela vale a pena.

Um abraço, e boa semana de decisões.

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Guilherme Barros
Fundador da GoFusion | Criador do Líderes da Logística

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