O consultor que me xingou
Na época da Automatizzare, minha primeira empresa, eu cheguei pro Norberto, que era o consultor do Sebrae, e falei sobre meus funcionários: porra, esses caras vêm aqui só pra me foder.
Lembro dele me xingar.
E me dizer: você realmente acha que a pessoa acorda pensando, hum, hoje eu vou foder o seu Guilherme? Deixa eu pensar como que eu vou fazer isso.
Ele me disse que eu não era tão importante assim. Que as pessoas não acordavam pensando em mim. Que elas simplesmente acordavam pensando na vida delas, no trabalho delas, no salário delas. E acabou.
Eu queria que ele concordasse comigo. Queria sair daquela sala validado. Saí xingado e com uma pergunta que não me deixava em paz.
Quando reclamação parece diagnóstico
Olha o que tinha de errado na minha frase, e demorei para enxergar.
"Esses caras vêm aqui só pra me foder" não parecia reclamação. Parecia diagnóstico. Parecia que eu tinha analisado a situação com frieza e chegado a uma conclusão técnica sobre o meu time.
Esse é o problema com o vitimismo na liderança. Ele não chega vestido de fraqueza. Ele chega vestido de lucidez.
Quando você diz "o motorista não quer nada com nada", você não sente que está reclamando. Você sente que está sendo realista. Quando você diz "ninguém aqui veste a camisa", soa como uma observação madura de quem já viu de tudo. O vitimismo se disfarça de experiência.
E é exatamente por isso que ele é perigoso. Ninguém revisa uma conclusão que parece óbvia. Você não questiona o que você acha que é só a verdade nua.
Eu não estava me sentindo vítima. Eu estava convicto de que estava certo. Essas duas coisas são a mesma coisa, só que uma é confortável de admitir e a outra não.
A pergunta que derrubou a frase
O que o Norberto fez foi tirar o disfarce.
Ele não me disse para ser mais positivo. Não me mandou pensar no copo meio cheio. Se tivesse feito isso, eu teria levantado e ido embora, porque a última coisa que um líder de operação quer ouvir é discurso bonito de quem nunca administrou uma folha de pagamento.
Ele fez uma coisa mais dura. Ele me perguntou se eu achava mesmo que aquelas pessoas acordavam de manhã, na casa delas, com a vida delas, os boletos delas, os filhos delas, e dedicavam o primeiro pensamento do dia a planejar como sacanear o seu Guilherme.
E quando ele colocou desse jeito, a frase desmoronou.
Porque é claro que não. As pessoas acordam pensando nelas. No salário que precisa cair. No carro que está quebrando. No filho que está doente. Na promoção que não vem. Elas não acordam pensando em mim porque eu não sou o centro da vida de ninguém, a não ser da minha.
Ali caiu a ficha. Ser escroto como líder não tinha muito valor. Não gerava nada de interessante.
Mas tinha uma camada embaixo dessa que levei mais tempo para entender.
O tribunal que o líder monta na cabeça
Existe uma diferença entre culpa e responsabilidade, e a maior parte dos líderes confunde as duas. Por isso fogem das duas.
Culpa olha para trás. Culpa pergunta de quem é o erro. Quer um nome, um culpado, uma cabeça. Quando o caminhão atrasa, a culpa procura: foi o motorista, foi o cliente que carregou devagar, foi a manutenção que não avisou, foi o trânsito. Culpa é um tribunal. E no tribunal da culpa, o líder quase sempre se coloca na cadeira da vítima, nunca na do réu.
Responsabilidade olha para frente. Não pergunta de quem é o erro. Pergunta o que está sob o meu controle a partir de agora.
Quando eu dizia "esses caras vêm pra me foder", eu estava num tribunal. Estava julgando, condenando, e me declarando inocente. O réu era o time. A vítima era eu. E o veredito já estava dado antes de qualquer audiência.
O que o Norberto fez foi me tirar da cadeira da vítima. Não para me sentar na cadeira do culpado. Para me sentar na cadeira de quem decide.
Porque enquanto o problema era o caráter dos meus funcionários, eu não tinha nada a fazer. Caráter alheio não se conserta. Eu estava preso. Refém de pessoas que, segundo eu mesmo, eram irrecuperáveis.
A contradição que abre a prisão
Agora vem a parte que parece contradição mas é o coração de tudo.
Assumir que o problema é seu não te enfraquece. Te liberta.
Soa errado, eu sei. Parece que carregar a responsabilidade por tudo deveria pesar mais. Na prática é o contrário.
Quando o problema é o time, a economia, o cliente, o governo, o diesel, o motorista que não veste a camisa, você não tem nada para fazer. Você só pode esperar o mundo melhorar. E o mundo não vai melhorar para você. Ninguém está vindo. Você está parado, de braços cruzados, esperando uma mudança que depende de todos menos de você.
Quando o problema passa a ser seu, alguma coisa muda no mesmo segundo. Se o time não performa, talvez o processo que eu desenhei esteja confuso. Se o motorista não veste a camisa, talvez eu nunca tenha mostrado por que valeria a pena vestir. Se ninguém me dá retorno, talvez eu nunca tenha criado o espaço para isso acontecer.
Repara que cada uma dessas frases termina num lugar onde eu posso agir. Processo eu reescrevo. Conversa eu chamo. Espaço eu crio. Clareza eu dou.
Vitimismo é uma prisão cognitiva. Quando você se sente preso, você não age. Quando você não age, você não muda nada. E quando nada muda, você se convence ainda mais de que o problema é externo. A prisão se tranca por dentro.
Responsabilidade é a única chave que abre por dentro. Não porque tudo seja culpa sua. Mas porque a parte que é sua é a única parte que você consegue mexer.
Três leituras, três decisões
Deixa eu trazer isso para o chão do pátio.
Situação 1 — O motorista que some no rastreador e não atende o telefone
Leitura de vítima: ele faz isso de propósito, não respeita ninguém, quer me deixar no escuro.
Leitura de responsabilidade: que combinado eu deixei claro sobre quando e como ele me dá posição? Existe um padrão que ele sabe de cor, ou cada um faz do seu jeito e eu reclamo depois?
Uma leitura me deixa furioso e parado. A outra me deixa com um procedimento para escrever amanhã de manhã.
Situação 2 — O cliente que vive cortando frete e ainda exige SLA nota dez
Leitura de vítima: o mercado está perdido, embarcador não valoriza ninguém, é tudo leilão.
Leitura de responsabilidade: o que ele enxerga de mim além do número no fim da planilha? Eu mostro o custo real de uma operação que não falha, ou só apareço quando vou pedir reajuste?
Uma leitura me deixa amargo. A outra me dá uma reunião para marcar.
Situação 3 — O encarregado que não toma decisão nenhuma sem te ligar
Leitura de vítima: não consigo achar gente com iniciativa, ninguém quer responsabilidade, tenho que fazer tudo sozinho.
Leitura de responsabilidade: eu já corrigi ele em público quando ele decidiu por conta? Eu deixei nítido até onde ele pode ir sem me perguntar? Gente não nasce sem iniciativa. Iniciativa morre quando errar custa caro demais.
Uma leitura me deixa sobrecarregado. A outra me dá uma conversa para ter.
Em todos os três, a versão vítima é mais confortável. Ela me dá razão. E não muda absolutamente nada.
A pergunta que fica
Você já venceu coisas mais difíceis que isso. Apertou o CPK quando todo mundo dizia que não dava. Segurou margem com o diesel subindo. Você não é o tipo que se vitimiza com número.
Mas vitimismo com número é fácil de enxergar. O que escapa é o vitimismo com gente. Esse é silencioso, porque se parece com experiência. Se parece com aquele líder calejado que já viu de tudo e sabe que não dá para confiar em ninguém.
Então a pergunta que eu te deixo é simples, e eu sei que ela incomoda:
Onde, na sua operação hoje, você está chamando de "o jeito que as pessoas são" o que na verdade é um combinado que você nunca deixou claro?
Para responder, faça dois movimentos:
1. Pensa numa pessoa específica. Não no time genérico. Numa pessoa.
2. Troca a frase "ele é assim" por "o que eu ainda não deixei claro para ele?".
Não é para se culpar. Culpa não constrói nada. É para encontrar a parte que é sua, porque é a única que você consegue mexer.
Se essa pergunta incomodou, guarda este email. Ela só fica mais útil com o tempo.
E se quiser continuar essa conversa, é o que eu destrincho toda semana no @lideresdalogistica.
Norberto me xingou. A consultoria tinha um preço. Mas aquela frase, sobre eu não ser tão importante a ponto das pessoas acordarem pensando em como me sabotar, foi a coisa mais barata que eu já comprei.
Guilherme Barros
Fundador da GoFusion | Criador do Líderes da Logística
