Chega na sua mesa a proposta de um investimento em tecnologia para o pátio. Um software para agendar a chegada dos caminhões, ligado ao que a operação já usa, com contrato de alguns anos. A proposta tem termos que você não usa no dia a dia, uma planilha com o retorno esperado e, no final, uma recomendação.
Você lê até a recomendação. Pergunta se vai dar certo. Ouve que sim. Você aprova.
Seis meses depois, o resultado não apareceu do jeito que a planilha mostrava. Você quer cobrar. E percebe que não sabe exatamente o quê.
Não sabe se o problema está na configuração, no dado que entra, no jeito que o time usa ou no que foi contratado. Não sabe qual pergunta fazer primeiro. A conversa que deveria ser uma cobrança vira um pedido de explicação, e quem conduz é quem implantou.
A pergunta que aparece nessa hora é se alguém errou. Pode até ter errado. Mas existe uma pergunta anterior, e ela é sua: em que momento você deixou de conseguir conduzir essa decisão?
Você não consegue cobrar o que não entende
Cobrar bem pede três coisas. Saber o que pedir. Saber quando pedir. E saber reconhecer quando foi entregue.
Quando o assunto é técnico e você não domina o mínimo dele, as três passam para quem executa. É quem executa que decide o que é importante, a hora de mostrar e o que conta como pronto. Você continua com o cargo e com a assinatura no investimento, mas a condução daquela decisão já não está com você.
O líder precisa conhecer o assunto o suficiente para conversar com quem executa e para exigir o que precisa ser exigido, no momento certo. Quem executa vai continuar sabendo mais no detalhe, e é bom que seja assim. O que você precisa é saber o bastante para fazer a pergunta certa antes de aprovar, entender a resposta e perceber quando a resposta não fecha.
Sem esse mínimo, sobram duas saídas, e as duas são ruins. Você aprova tudo, porque não tem como discutir. Ou trava tudo, porque não tem como confiar.
A operação muda, e o que você sabia sobre ela deixa de servir
Se você chegou ao cargo porque conhecia bem a operação, você conhecia a operação de um momento. Sabia como o pátio funcionava, como o turno se organizava, como a nota era conferida, como o motorista era chamado.
A operação não para naquele momento. Chega um software novo para agendar a descarga. Alguém cria um indicador que passa a contar na meta do ano. Uma regra muda, e o jeito de conferir a carga muda junto. O time começa a usar uma ferramenta que você nunca abriu.
Cada mudança dessas tem uma parte técnica. E cada parte técnica que você não acompanha é uma decisão que você deixa de conseguir conduzir: no investimento, no plano do ano, na cobrança da meta.
Isso acontece sem aviso. Ninguém chega e diz que você ficou para trás. Você percebe quando chega a hora de cobrar, como na proposta do começo, e a pergunta certa não aparece.
Por isso o estudo de quem lidera não termina quando ele chega ao cargo. Quem lidera precisa continuar se especializando, na liderança e também na parte técnica. O que você estudou para chegar até aqui serviu para a operação daquela época. A operação de agora pede outro estudo.
Fazer de tudo, mas não tudo
Há quase dois mil anos, Plutarco escreveu um texto de conselhos para quem assumia a condução de uma cidade. Nele, compara quem governa ao capitão de um navio. O capitão não tenta fazer tudo sozinho: divide as tarefas com a tripulação e guarda a si mesmo para o que é mais importante.
O capitão não rema e não limpa o convés. Mas, quando a situação aperta, quem assume o leme é ele. E esse é o ponto da responsabilidade: se der errado ali, quem afunda é o navio inteiro, e quem responde é ele. Por isso ele precisa saber conduzir.
Na operação vale o mesmo. O líder não faz o trabalho do time, porque se fizer tudo ele para de liderar. Mas ele precisa ser capaz de descer ao operacional quando é necessário: para resolver um problema, para ajudar a criar um processo, para definir uma regra, para passar a experiência dele adiante.
Descer ao operacional pede critério. O líder desce porque a situação exige, e não porque acha que ninguém faz melhor do que ele. E pede experiência: ter visto como foi feito, o que funcionou e o que não funcionou.
A experiência que permite ao líder descer ao operacional foi construída numa operação que já mudou. Se ele parou de estudar, quando o problema aparece ele desce para uma operação que não conhece mais. E resolve do jeito antigo um problema novo.
Três futuros para quem lidera
Quando a próxima tecnologia chegar na sua operação, ela vai encontrar um de três líderes.
O primeiro entende o mínimo. Antes de aprovar, ele faz as perguntas certas. Depois, sabe o que cobrar e reconhece quando o resultado veio. O investimento faz o que prometeu, porque alguém sabia conduzir a mudança.
O segundo aprova sem entender. A decisão passa para quem executa e para quem implantou. Ele descobre o resultado quando já não dá para corrigir, e responde por uma escolha que não conduziu.
O terceiro trava, porque não tem como confiar. Adia a decisão, pede mais uma análise, espera ter certeza. Enquanto isso, a operação fica parada e o setor continua andando.
Nenhum dos três é previsão. São caminhos. E o que decide em qual deles você vai estar é o que você estuda hoje.
A produtividade logística de amanhã se decide na gestão de hoje. E a gestão de hoje depende de alguém que entende o suficiente para conduzir.
Olhe para a sua semana
Pense nas decisões técnicas que passam pela sua mesa. O investimento que está esperando a sua aprovação. O indicador que conta na meta do ano e que você acompanha sem saber de onde ele vem. A regra que mudou o jeito de conferir a carga. A ferramenta que o time começou a usar e que você nunca abriu.
Escolha uma. De preferência, aquela que você aprova hoje sem conseguir discutir.
Nesse assunto, qual dos três líderes você é hoje?
Qual parte dele você precisaria entender para cobrar a coisa certa, no momento certo?
Quem no seu time domina isso e pode te explicar o mínimo?
Você não consegue cobrar o que não entende. E entender o mínimo está ao seu alcance. Nem sempre essa é a parte difícil. Muitas vezes é a mais interessante. Começa por um assunto só.
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Guilherme Barros
Fundador da GoFusion | Criador do Líderes da Logística
