Faz um tempo, eu pedi uma revisão de contrato para o meu time técnico.

Era um anexo com três partes técnicas. Mandei o documento por WhatsApp, gravei áudios explicando cada uma das três, e pedi a revisão das três.

Eles não ouviram os áudios. Fizeram a reunião pela metade e revisaram uma parte só. Atrasou um dia.

O atraso foi deles. A raiz foi minha.

Eu fiquei insatisfeito, e com razão aparente. O trabalho chegou pela metade.

Mas quando eu parei para olhar, a falha de raiz não era deles. Era minha.

Eu presumi que eles tinham entendido o que eu queria. Não garanti. Mandei o documento, mandei os áudios, e segui em frente como se aquilo bastasse.

Uma das coisas que eu ensino é exatamente essa: garantir que o outro entendeu. E eu não fiz.

Subestimei a tarefa e superestimei o quanto a pessoa já sabia sobre aquele tema. E o WhatsApp piorou tudo. Para uma tarefa complexa, mandar áudio e documento e sumir não é comunicação eficaz. É torcer para o outro montar sozinho o que estava só na minha cabeça.

Eu não tinha como cobrar bem uma coisa que eu nunca preparei direito.

Preparar não é combinar. Combinar não é cobrar.

Três coisas diferentes, e é fácil embolar as três.

Preparar é deixar claro, antes, o que conta como "pronto". E garantir, com o outro, que ele entendeu esse "pronto". Não é passar a tarefa. É confirmar que a pessoa sabe onde a tarefa termina.

Combinar é fechar o resto: o prazo, o padrão, e quem é o dono. As duas partes concordam, e fica registrado.

Cobrar é o que vem depois. Com firmeza, porque agora existe um combinado de verdade para cobrar.

A ordem importa. Preparar, Combinar, Cobrar. Fora dessa ordem, a cobrança não tem em que se apoiar.

Quem pula o preparar e vai direto para a cobrança está cobrando um combinado que nunca existiu. O outro lado nunca soube, com clareza, qual era o "pronto". Então, do ponto de vista dele, a cobrança caiu do céu. E quem cobra vira o vilão.

Cobrar o que você não preparou é fabricar um vilão.

Repare em quem fabrica o vilão nessa cena. Não é quem errou a tarefa. É quem cobrou sem ter preparado.

A mesma cena acontece no seu pátio.

Troque o contrato pela conferência na chegada. Pelo padrão da janela. Pelo jeito de registrar o que entrou.

Você passa a tarefa e recebe de volta uma coisa diferente do que esperava. O primeiro impulso é cobrar. Antes de cobrar, a pergunta é uma só: eu deixei claro o que era "pronto", e garanti que a pessoa entendeu, antes?

Mandar a instrução no grupo e sumir não é preparar. É a mesma coisa que eu fiz com os áudios no WhatsApp.

Quando alguém garante o entendimento antes, o resultado muda. Numa indústria, quem programa o primeiro turno faz isso na unha:

"por volta das 17 horas o líder da Turma B programa os primeiros veículos, ele liga para os motoristas um a um... antes a primeira hora do primeiro turno era quase sempre perdida."

Líder de turno de uma indústria

Ele não manda uma mensagem no grupo e torce. Liga para cada motorista, um a um, e confirma. A primeira hora do primeiro turno, que antes se perdia quase sempre, parou de se perder.

Mas o próprio líder sabe onde aquilo ainda é frágil:

"é muito rudimentar ainda, depende muito das pessoas. Às vezes a gente liga para o cara, o cara simplesmente: acho que eu vou dormir mais um pouquinho, e não aparece."

O mesmo líder, sobre o que ainda falha

Ele preparou, um a um, e a operação melhorou. Mas o motorista não é subordinado dele, é um terceiro que ele não comanda. E é aí que preparar mostra a sua natureza: preparar deixa o combinado claro, não obriga ninguém a cumprir. Dá para preparar bem e ainda ouvir "vou dormir mais um pouquinho". Mesmo assim, preparar já é muito mais do que mandar no grupo e sumir. Ligar um a um na véspera é a parte que dependia só dele, e ele fez.

Por que quase ninguém para para preparar.

Preparar cobra uma coisa que o líder no aperto não quer gastar: tempo, na frente.

Eu conheço esse custo de perto. Toda vez, uma parte de mim quer dar o assunto por resolvido e seguir em frente, como se mandar o documento e os áudios já bastasse. Parece mais rápido mandar e seguir.

Só que não é. O tempo que você economiza no "mandei, está lá" volta multiplicado. A tarefa retorna pela metade, você refaz, remarca, e ainda cobra alguém por uma coisa que nunca foi combinada de verdade.

O que é óbvio para você não é óbvio para o outro. O "pronto" que está claro na sua cabeça não está na cabeça de quem vai executar, a não ser que você coloque para fora e confirme.

Uma tarefa da sua próxima semana.

Não precisa mudar o seu processo inteiro. Pega a próxima tarefa que você vai passar para alguém.

Antes de passar, escreve o "pronto" dela em uma frase. O que precisa estar feito para essa tarefa contar como concluída.

Depois, na hora de passar, não manda e some. Pede para a pessoa te dizer, com as palavras dela, o que ela entendeu que precisa ser feito. Se o que ela repetir bater com a sua frase, você preparou. Se não bater, você acabou de descobrir o atraso antes de ele acontecer.

É um minuto a mais na frente. É o minuto que decide se, na semana que vem, você vai cobrar um combinado de verdade ou fabricar mais um vilão.

Responda este e-mail e me conte uma tarefa que voltou errada, e se o "pronto" dela estava combinado antes. Eu leio todas. E salve o meu contato, para a edição de quinta continuar chegando na caixa de entrada.

Na última vez que algo atrasou no seu time, qual das três faltou?

Responde em um toque. As respostas guiam as próximas edições.

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Guilherme Barros
Fundador da GoFusion | Criador do Líderes da Logística

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