Semana passada eu vi uma reportagem sobre o roubo de carga no Brasil. Não era a primeira vez. Mas alguma coisa naquela matéria ficou na minha cabeça, e não pelo motivo que você imagina.
O que me pegou não foi o tamanho do prejuízo. Foi o mapa. Porque o roubo de carga no Brasil não está espalhado pelo país inteiro de forma uniforme. Ele se concentra. A maior parte do estrago acontece num punhado de trechos, algumas rotas, alguns pontos quentes que todo mundo que roda naquela região já conhece de cor. E é exatamente por isso que a polícia e as seguradoras miram esses trechos. Elas não distribuem a atenção igual pelo mapa inteiro. Elas foram lá onde mora quase todo o prejuízo, e apertaram ali.
Eu fechei a matéria e, em vez de pensar na estrada, pensei no meu próprio trabalho. No jeito como eu toco a minha empresa e o meu time todo dia. E o que me pegou foi reconhecer o quanto eu preciso brigar para fazer o que aquele mapa ensina. Eu me esforço muito para dizer não para muita coisa. Não estou cego para essa armadilha, longe disso. Mas mesmo brigando, toda semana, a força que puxa para espalhar continua ali, viva, me testando. E foi isso que a notícia me lembrou: a parte difícil nunca é entender o mapa. É viver como ele manda, todo dia, contra a corrente.
A notícia me fez olhar para a forma como eu lidero
Deixa eu explicar por que essa história de roubo de carga é mais do que uma estatística triste.
Ela é um retrato limpo de uma coisa que a gente conhece de nome e não vive na prática. Chama Pareto, chama regra dos 80/20, chama concentração, chama o que você quiser. A ideia é simples: nem tudo pesa igual. Poucas causas respondem por quase todo o resultado. Um pedaço pequeno do mapa carrega o grosso do problema.
No caso do roubo de carga, esse pedaço pequeno é geográfico. Dá para desenhar. Dá para pintar de vermelho num mapa e apontar com o dedo. Por isso quem combate o problema consegue ser cirúrgico. Eles sabem onde está o vermelho, então mandam o recurso para o vermelho.
Agora vem a parte incômoda. O seu dia de líder também tem um mapa desses. A sua operação também tem. Você só nunca pintou ele.
A mesma lógica governa qualquer liderança, e ela puxa contra a gente o tempo todo
A armadilha que eu vou te descrever não é sobre carga. É sobre atenção. E atenção mal distribuída derruba qualquer operação, seja um pátio, uma frota ou o dia inteiro de quem lidera.
O que pesa pouco costuma ser exatamente o que faz mais barulho. É o urgente. É o que apita. É o WhatsApp que vibra, o e-mail marcado como importante, a pessoa que aparece na sua sala com um problema na mão pedindo resposta agora. Essas coisas gritam. Elas emitem sinal. E o sinal puxa a atenção como um ímã.
E mesmo sabendo disso, a gente se espalha. Poucas coisas movem quase tudo, e um monte de coisa pequena disputa a nossa atenção o dia inteiro. Eu me esforço muito para proteger as poucas que importam, para dizer não ao resto. E mesmo assim, de vez em quando, a distração escapa. A gente passa uma manhã resolvendo três coisinhas que apitaram alto e percebe, no fim do dia, que o que de fato movia a operação ficou esperando. Não porque não sabíamos. Porque a força que puxa para espalhar é real, e ela não desliga só porque você entendeu Pareto. Eu me pego seguindo o barulho, e aposto que você também.
E aqui está a frase que eu preciso que você leve desta edição inteira: o problema não está espalhado. A sua atenção é que está.
O mapa do roubo de carga é concentrado. O mapa dos problemas de qualquer operação também é. Quem combate o roubo age concentrado. E a gente, no dia a dia, tende a se espalhar, não por burrice, mas porque a corrente empurra para esse lado o tempo todo. Essa é a distância entre o que a gente sabe e o que a gente faz. Não é falta de informação. Todo mundo já ouviu essa história do 80/20 numa palestra, num curso, num post.
O difícil nunca foi entender. O difícil é viver. E eu falo isso de dentro de quem briga com essa dificuldade toda semana, não de fora. Viver Pareto esbarra em três coisas bem concretas, e eu quero abrir uma por uma, porque foi só quando eu enxerguei essas três que ficou claro por que a corrente é tão forte, mesmo para quem está atento a ela.
O 80% que não importa é o que grita mais alto
Essa é a primeira armadilha, e ela é traiçoeira.
O que pesa pouco costuma ser exatamente o que faz mais barulho. É o urgente. É o que apita. É o WhatsApp que vibra, o e-mail marcado como importante, a pessoa que aparece na sua sala com um problema na mão pedindo resposta agora. Essas coisas gritam. Elas emitem sinal. E o sinal puxa a atenção como um imã.
O que mais custa, por outro lado, costuma ser silencioso. O processo que sangra um pouquinho todo dia e ninguém reclama. O combinado com a transportadora que nunca foi feito, e por isso a falha se repete devagar, sem estardalhaço. O indicador que piora um grau por semana. Nada disso apita. Nada disso aparece na sua porta. Ele só cobra a conta lá na frente, maior, quando já virou um número feio no fechamento.
Repara na crueldade disso. Você tem dois problemas na sua frente. Um é pequeno e grita. O outro é grande e é mudo. E a gente, sendo humano, tende a seguir o que grita. Não é preguiça. Não é falta de competência. É que o barulhento é o único dos dois que está mandando um sinal, e o instinto responde ao sinal que chega.
Por isso a concentração é tão difícil de viver na prática, e por isso eu preciso brigar com ela mesmo sabendo de tudo isso. O mundo não te entrega os problemas ordenados por tamanho. Ele te entrega ordenados por volume de barulho. E quase sempre o barulho e o tamanho estão em lados opostos.
Achar os poucos que importam exige medir, não achar
A segunda coisa é a mais sorrateira, porque a gente se acha esperto nesse ponto.
Se eu te perguntar agora quais são os dois ou três maiores ralos da sua operação, você vai responder na hora. Todo líder responde. A gente acha que sabe. O problema é essa palavra: achar. Existe uma distância silenciosa entre achar que sabe onde está o prejuízo e ter medido onde ele está.
Volta no mapa do roubo de carga. A polícia não desenhou aqueles pontos vermelhos no chute, não foi no feeling de um delegado experiente. Foi cruzando dado. Ocorrência por ocorrência, trecho por trecho, até o mapa se desenhar sozinho e mostrar onde a coisa realmente acontece. O mapa é fruto de medição, não de opinião.
No dia a dia a gente pula essa parte. A gente confia na memória, e a memória é péssima para isso. Ela guarda o problema mais recente, o mais dramático, o que gerou a briga mais feia, o cliente que gritou mais alto. Ela não guarda o que mais custou. Então quando você decide "de cabeça" onde focar, você não foca no que mais dói. Você foca no que ficou mais marcado. E de novo, o que fica marcado quase nunca é o que mais pesa. É o que fez mais barulho.
Medir não precisa ser um sistema caro nem um projeto de seis meses. Pode ser uma planilha simples com o registro do que trava, quantas vezes trava e quanto custa cada vez que trava. Feio, tosco, à mão. Não importa. O que importa é que no fim ela te entrega um mapa, e o mapa quase sempre surpreende. Ele mostra que o trecho vermelho não era o que você juraria que era.
O problema não está espalhado. A sua atenção é que está. E sem medir, a atenção vai se fixar no lugar errado com toda a convicção do mundo.
Focar nos poucos exige a coragem de deixar muita coisa sem tratar
A terceira é a mais difícil, e é onde quase todo mundo desiste.
Focar não é fazer mais. Focar é escolher, de propósito, o que vai ficar sem a sua atenção. É pegar a lista de dez coisas, apontar as duas que carregam o grosso do estrago, e conscientemente deixar as outras oito de lado por enquanto. Não porque elas não existem. Porque elas não são o vermelho do mapa.
E aqui entra uma frase que eu carrego comigo: foco é a arte de dizer não com elegância. Repara que eu não digo só "dizer não". Digo dizer não com elegância. Porque o não seco constrange. As pessoas ficam até com vergonha de pedir de novo, e você ganha a fama de porta fechada. Muitas vezes o não precisa vir com uma explicação, o porquê daquilo não caber agora, para que a pessoa entenda que não é descaso, é prioridade. Dizer não bem não é um detalhe de etiqueta. É parte do foco. Quem não aprende a recusar com clareza acaba dizendo sim para tudo e concentrando em nada.
E deixar coisa sem tratar dá um desconforto físico que quase ninguém aguenta. Mas tem uma segunda força, mais silenciosa que o desconforto, empurrando você de volta para o pequeno: o prazer.
Repara no que acontece quando você zera a caixa de entrada. Você leu cem e-mails, respondeu, arquivou, e a tela fica limpa. Dá uma sensação boa, quase física, de vários feitos riscados da lista de uma vez. É recompensa na hora. O pequeno premia imediatamente. Já a coisa grande, a que de fato move a operação, não te dá esse gatilho. Ela demora. Ela é uma briga em várias frentes ao mesmo tempo, interna e externa, sem linha de chegada visível hoje. Você trabalha, trabalha, e no fim do dia ainda parece que não saiu do lugar. Então a gente foge. Volta para o pequeno, que abraça de volta com aquela sensação gostosa de produtividade, enquanto o grande fica ali, mudo, esperando. Não é falta de disciplina. É que um lado te paga na hora e o outro não.
A polícia consegue focar os pontos quentes porque assumiu uma coisa dura: não dá para blindar todas as estradas do país ao mesmo tempo. Escolher os trechos vermelhos significa, na prática, deixar muito quilômetro sem a mesma atenção. É uma escolha desconfortável. Mas é ela que faz o recurso render.
Concentrar é isso. É ter a coragem de conviver com problemas menores em aberto para poder matar de verdade o problema maior. Eu brigo com essa vontade de dar conta de tudo toda semana, e essa briga não fica mais fácil com o tempo, só fica mais consciente. É uma disciplina, não um talento.
E aqui eu preciso ser honesto sobre uma coisa, porque achar os poucos que importam é só metade do caminho. A outra metade é conseguir proteger o tempo e o espaço para de fato atacá-los, sem ser interrompido no meio. De nada adianta você saber qual é o trecho vermelho se toda vez que senta para tratá-lo o telefone toca, a porta abre, e o pequeno te sequestra de novo. Proteger esse foco, blindar as horas que a coisa grande exige, é uma disciplina inteira por conta própria, tão difícil quanto escolher onde focar. Isso merece uma conversa só para ele, e é sobre isso que eu quero falar com você numa próxima edição. Por ora, fica a semente: escolher os poucos é o primeiro passo. Guardar espaço para eles é o que faz a escolha virar resultado.
Olhe para a sua semana
Agora eu quero devolver isso para você, porque essa reflexão não é minha, é sua.
Faz um exercício simples esta semana, antes de tratar de qualquer problema novo. Pega um papel e responde duas perguntas, lado a lado.
Primeira: onde a minha energia foi de verdade na semana passada? Não onde você planejou que ela iria. Onde ela foi mesmo. Quais foram as coisas que consumiram as suas horas.
Segunda: onde estava o meu maior prejuízo na semana passada? O que de fato custou mais, em dinheiro, em cliente, em retrabalho, em carga parada.
Depois olha as duas listas juntas. Se elas baterem, ótimo, você está mirando o vermelho do seu mapa. Mas se elas estiverem em lugares diferentes, e na maioria das operações elas estão, você acabou de encontrar a distância entre onde o problema mora e onde a sua atenção passou a semana.
E tem uma armadilha nesse exercício que eu já te aviso: não responda a segunda pergunta de cabeça. Não vale achar. Se você não tem o número, essa é a sua primeira tarefa, antes de qualquer outra. Comece a medir. Nem que seja numa planilha tosca. Porque sem o mapa medido, você vai continuar apontando o dedo para o trecho errado com toda a certeza do mundo.
Não é para dar conta de tudo. Nunca foi, para nenhum de nós. É para achar os poucos que importam, medindo e não chutando, e ter a coragem de ficar com eles mesmo com o resto gritando na orelha. Eu brigo com isso toda semana, e é exatamente por brigar que eu sei o quanto é difícil.
O problema não está espalhado. A sua atenção é que está. E a boa notícia é que atenção, diferente de estrada, você consegue mover.
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Guilherme Barros
Fundador da GoFusion | Criador do Líderes da Logística