Eu tinha um empreiteiro tocando uma obra minha. Um dia ele apareceu pedindo mais dinheiro para terminar.
Eu disse que não. Já tinha pago tudo o que estava combinado, e o combinado era claro.
E o pessoal da obra não tinha recebido. O dinheiro tinha entrado, o trabalho tinha sido feito, e quem colocou a mão na massa estava sem receber. Eu não sei para onde aquele dinheiro foi, e minha leitura é que ele foi tapar buraco em outra obra. Nunca tive como provar.
Aí eu falei que eu assumia. Assumi os pagamentos, terminei a obra e fiquei no prejuízo. O empreiteiro sumiu e não voltou mais.
E faria de novo. Não tem arrependimento nenhum nessa história. Quem trabalhou tinha que receber, e quem tinha condição de pagar naquele momento era eu. A conta chegou até mim porque o resultado da obra era meu, mesmo quando a culpa não era. Pagar foi certo, foi rápido e foi a única coisa que dependia só de mim.
Pagar acertou a folha daquele pessoal. Não mudou uma vírgula do que estava combinado com o empreiteiro.
Na obra, isso terminou ali. A obra acabou, o prejuízo foi contado uma vez, e não teve semana seguinte.
Na sua operação não existe esse fim. O combinado da janela, do prazo, da conferência na chegada, é o mesmo que vai valer amanhã, com a mesma transportadora e com motoristas que se repetem. Se ele falhou uma vez e ninguém mexeu nele, ele vai falhar de novo, no mesmo ponto. E toda vez que falhar, alguém paga. Como nada mudou no combinado, esse alguém é sempre o mesmo.
Se o combinado não muda, quem paga também não muda.
Eu tinha contrato. E contrato não cobra de quem não tem nada.
Aquele empreiteiro tinha contrato comigo. Eu poderia ter ido atrás dele na justiça, e talvez até ganhasse.
Só que ganhar e receber são duas coisas diferentes. Quando a pessoa não é séria e não tem patrimônio, mesmo que você ganhe, você não leva. Não tem como cobrar de quem não quer pagar e não tem nada para ser tomado.
Então o papel estava lá, e no único dia em que ele precisaria funcionar, ele não funcionou. Consequência que não é executável faz o mesmo efeito de não estar escrita.
E é exatamente aqui que a sua operação é diferente da minha obra, para melhor. O meu empreiteiro sumiu, a relação acabou, e o que sobrava era a justiça. A transportadora que não cumpriu a janela volta amanhã. O produtor volta na safra. O fornecedor quer o próximo pedido. A relação continua, e é por isso que ali existe consequência que funciona de verdade.
Só que não basta escrever. O outro lado precisa saber o que vai acontecer se não cumprir, e ter concordado com aquilo antes. E na maior parte das operações que eu ouvi, essa conversa nunca aconteceu.
Por isso ela volta. E volta sempre para o mesmo lugar.
Eu revisei 48 conversas de trabalho da minha empresa com quem responde pela operação em 21 indústrias, e catalogamos 342 decisões sobre como essas pessoas tocam o pátio: o que medem, o que deixam passar, e quem paga quando alguém não cumpre o combinado. Eu estava na sala em todas elas, e todas já tinham um problema grande o suficiente para procurar ajuda. O retrato é desse recorte.
Duas categorias empataram no topo, e uma delas é quem paga a conta. Dentro dela, num dos lotes, das nove decisões nenhuma terminou com a conta indo para quem quebrou o combinado. Em oito das nove, quem absorveu foi alguém de dentro da própria indústria. São nove decisões, é pouco, e mesmo assim foi o que me fez parar.
Numa indústria de bebidas, parte dos transportadores de vasilhame mal consegue assinar o nome, e não vai operar o sistema de agendamento. A decisão foi essa:
“A gente vai forçar com todos. Mas o litreiro que a gente entender que o cara não consegue fazer esse gerenciamento, aí o time da célula vai absorver. Pra gente não perder o controle.”
Quem responde pela operação numa indústria de bebidas
Repare que aquilo foi uma decisão, e ele disse o motivo em voz alta. Tem data, tem motivo e tem dono, e por isso pode ser revista daqui a seis meses. A maior parte das absorções não é assim: ninguém decide, ninguém anuncia, e o trabalho do outro vai ficando. Como nunca foi dita, ela também nunca é revista. Ela só aparece no fim do mês, distribuída em hora extra, frete mais caro e gente da operação fazendo o trabalho que era do outro lado.
Em outra indústria, existe um prazo de pátio acordado com o transportador, e se o caminhão passa daquele tempo, quem paga a permanência é a indústria. Ali a absorção foi combinada antes: a indústria aceitou pagar esse tempo.
E tem a versão mais direta de todas, dita por quem responde por uma operação de distribuição sobre as entregas que não fecham no combinado:
“a ineficiência das entregas, no final de tudo, quem paga a conta é a gente, com frete mais caro.”
Quem responde por uma operação de distribuição
Ele sabe qual é a conta, sabe de onde ela vem e sabe que ela chega no frete. E mesmo assim ela chega toda semana, porque nada mudou no acordo com quem gera a ineficiência.
E existe uma saída que quase todo mundo tenta antes de mexer no combinado. Ela é a mais cara de todas.
Triplicar o estacionamento é a versão cara da mesma decisão.
Existe uma tentativa que parece resolver de vez, e que custa mais do que todas as outras somadas: comprar capacidade.
A mesma operação de distribuição:
“a gente triplicou o estacionamento ano passado e eu perguntei semana passada, o estacionamento tá lotado de novo.”
Numa indústria de bens de consumo, construíram a área de vivência inteira para concentrar o motorista em um lugar só:
“tem até parquinho, mas eles não ficam lá. Tem lanchonete, tem vestuário, tem restaurante, tem toda a infraestrutura para eles, mas eles somem.”
Quem responde pela operação numa indústria de bens de consumo
Investimento aprovado, obra entregue, e o pátio cheio de novo. Pode ser que o volume tenha crescido e a obra fosse necessária mesmo. Ninguém mediu o antes e o depois, então não dá para saber quanto daquele pátio cheio era volume novo e quanto era combinado que continuou não sendo cumprido.
A obra resolve espaço, e não resolve combinado. O que vinha de quem não cumpre continua vindo, agora dentro de um pátio maior.
E tem dois motivos honestos para essa ser a saída preferida. O primeiro é que comprar capacidade depende só de você: orçamento, projeto e obra são coisas que um líder de operação conduz sozinho, enquanto renegociar o combinado depende de outra pessoa dizer sim. O segundo é contábil: a obra tem projeto, aprovação e data de entrega, e a absorção sai diluída em hora extra e frete, sem ninguém somar. Uma é visível e a outra não, e é sempre a visível que alguém ataca.
Se o combinado não muda, quem paga também não muda.
A conta só muda de dono quando o combinado muda.
Se pagar a conta não muda a conta de lugar, e se comprar capacidade também não, sobra uma coisa só: mexer no combinado. E mexer no combinado quer dizer acertar, com a outra parte, a metade que quase nunca é acertada: o que acontece quando ele não for cumprido.
A formulação mais limpa disso que eu já ouvi não veio de método nenhum. Veio de uma gestora de suprimentos de uma indústria de alimentos, no meio de uma conversa sobre regras de agendamento:
“o importante é escrever a regra, mas também o importante é se a pessoa não cumprir aquela regra, o que que eu faço com ela? Porque também não adianta nada a gente aqui batendo cabeça para escrever regra se eu não fizer nada, se a pessoa não cumprir.”
Quem responde por suprimentos numa indústria de alimentos
Ela não estava propondo uma teoria. Estava descrevendo o próprio trabalho e percebendo, em voz alta, onde ele para.
Essa é a pergunta que quase nunca aparece na hora de escrever a regra. Escreve-se o que a pessoa deve fazer, o prazo, o formato, o horário, o documento que ela precisa apresentar na portaria. A segunda metade fica em branco. E o que fica em branco não é neutro. Ele já tem um dono por padrão, e o dono é quem responde pelo resultado.
Vale reparar em uma coisa: acertar a segunda metade não é endurecer com ninguém. Numa das conversas, quem estava dentro descreveu por que o fornecedor priorizava a entrega do concorrente: lá existia multa no contrato, e ali não. Não foi o tamanho da multa que decidiu, foi ela existir e ser aplicável. E consequência não precisa ser dinheiro. Pode ser prioridade na fila, pode ser a informação chegando ao mesmo tempo para todo mundo.
Para a segunda metade existir de verdade, ela precisa de três coisas ao mesmo tempo:
Escrita. O que exatamente acontece quando a regra não é cumprida, com o mesmo cuidado com que se escreve a regra.
Registrada. O lugar certo é o contrato, ao lado da regra que ela sustenta. Onde não couber contrato, um documento que as duas partes assinaram e conseguem abrir depois. Nunca no e-mail de uma pessoa só.
Combinada. Quem vai sofrer a consequência soube dela antes e concordou.
Falta uma das três e ela não se aplica. Sem estar escrita, continua sendo intenção, e some na primeira semana cheia. Sem estar registrada, vira palavra contra palavra. E sem ter sido combinada, ela aparece pela primeira vez no dia em que é aplicada, o que gera discussão em vez de mudança, e com razão.
Nada disso é difícil de escrever. Uma linha, no mesmo documento onde a regra já está. Então vale a pergunta: por que quase ninguém escreve?
Se acontece toda semana, o sistema permite.
Tem um degrau entre pagar a conta e mudar quem paga a conta, e ele é psicológico antes de ser contratual.
O primeiro degrau é aquele que eu subi na obra: eu posso não ser culpado pelo que aconteceu, mas sou responsável pelo que faço com isso. Culpa olha para o passado e paralisa. Responsabilidade olha para o presente e organiza ação.
O degrau seguinte é outro. É onde a Responsabilidade Radical realmente termina. Se isso acontece com frequência, o sistema permite. E o sistema é de quem responde por ele.
O foco sai das pessoas e vai para quatro coisas: as decisões, os critérios, os acordos e os padrões. Deixa de ser uma pergunta sobre o empreiteiro que sumiu, sobre o motorista que não avisou, sobre a transportadora que não confirmou. Vira uma pergunta sobre o que estava combinado, e sobre o que faltava nesse combinado para aquilo ter virado rotina.
Assumir não termina em pagar. Termina em assumir o sistema. Pagar é a primeira metade da ação, e é uma metade honrada. A segunda metade é mexer no critério, no acordo e no padrão, para que a mesma conta não chegue de novo pelo mesmo caminho na semana que vem.
Olhe para uma conta da sua última semana.
Se o combinado não muda, quem paga também não muda.
Então pegue uma conta só. Uma que a sua operação absorveu nos últimos sete dias. A hora extra que alguém do seu time fez porque um veículo chegou fora da janela. A pessoa que ficou marcando manualmente o que era para o outro lado marcar. O frete mais caro que saiu porque a entrega não fechou como combinado.
Escreva três linhas em um papel, sozinho, sem mandar para ninguém:
O que aconteceu.
Quem quebrou o combinado.
O que estava combinado antes, por escrito, sobre esse caso.
Não precisa levar isso para reunião nenhuma. Não precisa apresentar para ninguém. São três linhas, em um papel, sobre um caso só.
Se a terceira linha ficar em branco, você já tem a resposta. E não é sobre a pessoa da linha dois.
E aí vem a pergunta dela, que a partir de agora é sua: se a pessoa não cumprir aquela regra, o que que eu faço com ela?
Responda este e-mail e me conte qual conta você escolheu, ou o assunto que você quer ver na próxima edição. Eu leio todas. E salve o meu contato, para a edição de quinta continuar chegando na caixa de entrada.
O que você achou desta edição?
Guilherme Barros
Fundador da GoFusion | Criador do Líderes da Logística